5.11.09

Dez dias em Xangai


Inicialmente tinha planeado levar os meus filhos nas férias da Páscoa a Nova Iorque. Há já alguns anos que reservo esta época para continuar a vida noutra cidade. Mudei contudo de ideias em Novembro e decidi que a viagem seria a Xangai. Achei que Nova Iorque podia esperar. Xangai é que não. Já lá tinha estado três vezes em trabalho e de ano para ano a cidade transformava-se a olhos vistos, substituindo antigos bairros e espaços vazios por arranha céus, novos equipamentos e parques, como o que se está a construir agora em Puxi para a Exposição Mundial de 2010. Era urgente ir lá, em plena fase de transformação.

Não foi difícil convencer os meus filhos da alteração de planos. O projecto inicial de trazer o mais recente gadget tecnológico de Nova Iorque foi rapidamente abandonado face à promessa muito mais aliciante de que os iria deixar arrotar alto e bom som onde quer que fosse. Afinal iríamos para a China e lá os arrotos são sinal exterior de que se apreciou a refeição.

Chegámos a Xangai num sábado de manhã.

Quando saímos do aeroporto, dirigimo-nos para o Maglev, o comboio magnético de alta velocidade que nos iria transportar até Pudong, a zona mais recente da cidade, a sul do rio Huang Pu.

Aproveitámos o desconto oferecido aos portadores de bilhete de avião e lá nos estreámos na alta velocidade. Para a posteridade ficou a nossa fotografia por baixo do indicador que assinalava 430 km/h, a velocidade máxima atingida naquele percurso. Da velocidade propriamente dita, nem nos apercebemos. Só quando 7 minutos depois chegámos ao destino, que fica a mais de 30 km do ponto de partida. Uma viagem que soube a pouco.

Em Pudong apanhámos então um taxi para Puxi, a outra margem do rio. Os taxis são baratos e um excelente meio de transporte, desde que se apresente ao motorista o nome em caracteres chineses e de preferência o mapa com a localização do sítio para onde queremos ir. Para três ou mais pessoas sai praticamente ao preço do metro.

No Hotel, aí sim, sentimos bem a velocidade do elevador que nos levou até ao 50º andar do JW Marriott, para um quarto moderno e confortável com vista sobre o People’s Square.

Não é difícil de perceber que Xangai é uma cidade que se orgulha do progresso e que tem pressa em reconstruir todos os bairros e zonas que nem sempre oferecem as melhores condições de habitabilidade, mas que, no fundo, são as zonas que consideraríamos mais características. Xangai é uma cidade que cresce em altura e onde dificilmente ainda encontramos prédios com menos de 20 andares.

Descobrir em Xangai um estilo de vida e ritmos diferentes não foi por isso tarefa óbvia. Se por uma lado nos deixámos fascinar por uma Pearl Tower ou pelo prédio mais alto da cidade, o “Tira Caricas”, que com 500 metros de altura acolhe os visitantes lá bem no topo, no 100º andar, por outro gostámos mesmo de visitar tudo aquilo que de certeza não iríamos encontrar noutro lugar.

Para começar, planeámos um passeio ao Lu Xun Park. Desde logo um parque onde não se encontram Ocidentais. Os locais passeiam, fazem ginástica, constituem-se em pequenas tertúlias musicais, agrupam-se em torno de amplificadores portáteis para umas sessões de karaoke ao ar livre e vivem os Domingos sem pressa. Dali segue-se com facilidade para a Rua dos Poetas (Duo Lun Road), onde uma estátua do Charlot assinala um café dedicado ao cinema.

Nessa rua é possível ainda encontrar velharias e artistas a pintar miniaturas e passear por um mercado de rua em que gente, cheiro, cor, animação, legumes, sapos e enguias se apresentam de uma forma quase que diria compartimentada, onde cada coisa ocupa um quadradinho no mosaico que se nos impõe como uma impressão geral de: Isto sim, é a China.

Tão chinês como o Fake Market na Nan Jing W Road. Há poucos anos este mercado de contrafacção ainda se localizava num espaço a céu aberto, hoje ocupado por mais um arranha céus onde funciona um centro comercial de lojas de marca e escritórios de grandes multinacionais. O Fake Market, agora também ele acomodado nos primeiros três pisos de um prédio sem fim, é constituído por centenas de pequenas lojas onde se pode encontrar desde a mais recente mala Louis Vuitton a roupa exclusiva de Paul Smith, cópias baratas de relógios de três mil euros ou vestuário de marca. Tudo falso e de má qualidade, como é evidente. Mas vale a pena pelas T-shirts que de facto se podem obter por preços muito bons, desde que não falte a vontade de regatear como deve ser.

A não perder é o Museu de História Municipal na base da Pearl Tower. Neste Museu recria-se em tamanho real a vida na cidade como teria sido durante o tempo das Concessões, de meados do séc XIX a meados do séc XX. Todos os ofícios estão primorosamente representados e, melhor que tudo, temos aqui uma óptima oportunidade de nos lembrarmos ou talvez mesmo de nos apercebermos, como será o caso dos mais novos, que afinal a sociedade é isto mesmo, um colectivo, em que cada um contribui com o produto do seu trabalho para a comunidade. À saída é possível ainda apreciar dezenas de maquetas de vivendas construídas no tempo das Concessões e que constituem um dos patrimónios mais interessantes da cidade.

E se se quiser passar um dia de facto diferente, então combine-se com o Thomas Chabrières um passeio de mota com side car através da Shanghai Sideways, empresa que gere visivelmente com grande prazer. Por uma questão de segurança, mas à revelia de todos os hábitos locais, colocámos os capacetes e embarcámos neste passeio que nos levou justamente a ver alguns bairros antigos, o antigo matadouro, agora transformado num dos pontos de encontro mais fashion da cidade, o gigantesco mercado de acessórios de electrónica, a surpreendente zona das Galerias de Arte Moderna, onde parámos para descobrir a contemporaneidade dos artistas chineses. No final fomos beber um copo ao jardim do Young Foo Elite, um Clube exclusivo localizado na Concessão Francesa e que nos remeteu para uma China imperial e discreta, para um mundo de luxo a que não teríamos acesso, mas que tivemos a possibilidade de vislumbrar.

Omnipresentes na China estão os animais, quer porque os chineses comem tudo à excepção dos ossos, quer porque há uma grande variedade de insectos, peixes e tartarugas, que tanto podem constituir a próxima refeição, como povoar as mais ornamentadas gaiolas ou os mais inusitados aquários.

No Wild Insect Kingdom, junto à Pearl Tower, pode ver-se de perto toda a espécie de insectos e répteis. As cobras são alimentadas à vista de todos com ratinhos recém nascidos, cegos e cor de rosa. À saída podem comprar-se besouros, carochas, lacraus, insectos preservados em acrílico ou mesmo construir um quadro decorativo com os bichos secos que ali estão à venda.

Ao virar da esquina fica o Shanghai Ocean Aquarium, aquário que se caracteriza sobretudo pelofacto de ter o maior túnel subaquático do mundo , bem como albergar uma salamandra gigante com 1,80 m de comprimento. Tubarões e tartarugas gigantes passam a rasar por cima das nossas cabeças enquanto nos deixamos transportar preguiçosamente por um tapete rolante.

A visita aos animais não ficaria completa sem um passeio pelo mercado dos insectos, das aves e dos peixes, que fica mesmo em frente ao mercado das antiquidades que, escusado será dizer, merece igualmente uma visita. Girinos, grilos, borboletas, passarinhos, peixes tropicais, tartarugas, canários, salamandras e tritões, cada ser em sua gaiola, tanque ou aquário formam um caleidoscópio difícil de descrever.

Aliás, em Xangai podemos facilmente perder-nos em enumerações. À semelhança da multiplicidade arrumada que encontrámos nos diferentes mercados, também há ruas inteiras dedicadas a um só tipo de artigo apresentado em toda a sua variedade. Assim, na Jin Lu Road praticamente só encontramos lojas de instrumentos musicais e na Fouzhou Road livrarias e lojas de materiais de pintura, pincéis e papéis, onde sem dar por isso passamos horas perdidos no pormenor.


E sobre comida, algumas indicações:

www.BaoLuoJiuLou.com (chinês)

www.shintori.com.tw (japonês)

www.vabeneshanghai.com (italiano)

www.mesa-manifesto.com (bar e restaurante de tapas)

Pu Dong Restaurant (chinês em 660 Shang Cheng Lu)

Find It (chinês sem tradução e sem imagens em 650 Yuyuan Lu. Óptimos Dumplings)

Piso 6 do Raffles City (centro comercial junto ao People’s Square). Aqui carrega-se um cartão de dinheiro e vai-se descontando à medida que se escolhe. Aconselha-se as espetadas cozidas. Muito barato, prático e bom.